domingo, 4 de abril de 2010

A arte pela arte


Toda manifestação artística é o desenho da alma virada do avesso. Desde a mais comercial até as que não tem nenhum intuito lucrativo. Isto é, tudo aquilo que é objeto de criação, ou até mesmo o que é visivelmente copiado do que já é existente, mas passa por um processo de apropriação, é a mais genuína representação do indivíduo despido de qualquer censura, dando voz ao inconsciente que sequer ele conhece a fundo. Deste modo, toda obra é reflexo de seu criador, ainda que criador e criação pareçam substancialmente distintos.

Por isso, não me sinto no direito de classificar uma obra de arte como boa ou ruim, porque seria como enjaular o direito do outro de manifestar-se, seria como intitular e qualificar a essência do criador, num processo mecânico, industrial, ilustrado com flashes de "Tempos Modernos" de Chaplin, numa ausência completa de sensibilidade e compreensão. Portanto, me limito a classificar a criação alheia de duas formas: aquelas que contem elementos que me agradam e as que não me agradam. Note que o uso do pronome deixa claro a particularidade que me acerca.

Escrevi isso para tentar me livrar um pouco da culpa pela incapacidade de ser imparcial, o que ficará claro nos próximos três textos, resenhas críticas dos três últimos filmes que vi.

Sede de leite azedo


Você já sentiu sede, tomou um copo de leite e só depois percebeu que estava azedo? É assim que eu me sinto por dentro. É assim que eu sempre me senti.

Eu poderia não ter sentido sede, mas senti, era inevitável. Eu poderia ter tentado ignora-la, mas precisava atender seu chamado. E no meio de tantas opções, escolhi justo o leite, justo aquele que me azedaria por dentro. Depois de engolir aquele líquido que me corroía, já não havia nada que pudesse ser feito. A sede que antes me incomodava dava lugar ao mal estar, a dor, a apatia, a tantos extremos. E de nada adiantaria tentar esquecer o leite azedo, pois ele estava lá, correndo nas minhas veias disfarçado de sangue, camuflado entre os glóbulos, como se tivesse alguma vida. Eu poderia vomitar todo o leite, todo o azedo, ou perfurar as veias com agulhas espessas que me aniquilariam e me esvaziariam o corpo de todo sangue, de todo leite, de toda sede... Mas nunca me livraria do gosto azedo, sequer se a língua fosse mutilada e o paladar totalmente comprometido, porque o sabor viscoso e azedo estava dentro de mim, dentro das lembranças, dos sentimentos, da alma. A sede iria embora, voltaria, não se sabe, mas o azedo do leite permaneceria na memória e na sensação.

Assim são as pessoas, os desejos e os sentimentos. Os desejos nos levam até as pessoas que nos despertam sentimentos, e mesmo quando vomitamos as pessoas e o que sentimos por elas, até a última gota, elas vão embora, tal como os desejos e os sentimentos, mas a lembrança e a sensação do vazio permanecem aqui dentro. E permanecerão sempre.

.

Lembrança da influência da Ana



O meu guri

Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar

Como fui levando não sei explicar
Eu assim levando ele a me levar
E na sua meninice
Ele um dia me disse que chegava lá

Olha aí, olha aí, olha aí
Ah, o meu guri
Olha aí, olha aí
É o meu guri
E ele chega

Chega suado e veloz do batente
Traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar

Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documento
Pra finalmente eu me identificar

Olha aí, olha aí
Ah, o meu guri
Olha aí, olha aí
É o meu guri
E ele chega

Chega no morro com carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Mas até ele chegar lá no alto
Essa onda de assalto está um horror

Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar

Olha aí, olha aí
Ah, o meu guri
Olha aí, olha aí
É o meu guri
E ele chega

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais

O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá

Olha aí, olha aí, olha aí
Ah, o meu guri
Olha aí, olha aí
É o meu guri

Chico Buarque - o mestre.
.

sábado, 3 de abril de 2010

A absolvição do casal Nardoni


Finalmente consegui um tempo livre e ao invés de dedica-lo a algo extremamente útil como arrumar a bagunça de casa, organizar o cronograma de trabalhos da faculdade e descansar a mente deitada na cama sozinha, resolvi escrever sobre o assunto mais falado nas últimas semanas: o caso Nardoni. Admito, estou um pouco atrasada, mas é algo em que tenho pensado e não quero deixar a ideia se perder.

Antes de mais nada, é bom ser o mais clara possível quanto à imparcialidade deste texto. Não pretendo fazer qualquer tipo de apologia, sequer apontar culpados ou inocentes, embora o júri, as provas e a opinião pública tenham feito isso com afinco.

Logo que soube do caso Isabella, há dois anos, diferente da grande maioria das pessoas que se indignou, sentei em frente a televisão e ouvi atentamente a todas as reportagens, inclusive as mais sensacionalistas, fascinada com a trama policial que envolvia o casal Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni, e a filha/enteada Isabella Nardoni. A história típica de um roteiro policial/criminal hollywoodiano era verídica e viraria um dos casos mais comentados atualmente em todos os jornais. (Não pretendo conta-la, porque ela se tornou mais popular que a história de Cristo, da Branca de Neve, do Silvio Santos, da Cinderela, etc etc etc...Seria redundante.)

Mas não é o assassinato em si que me chama atenção, sequer descobrir os culpados, mas a postura popular em relação ao ocorrido. Durante o julgamento, dezenas de pessoas largaram seus empregos e suas vidas para segurar cartazes e proferir palavras de ódio e indignação. Mas qual era o conhecimento técnico, jurídico e até mesmo presencial da população perante o caso? Eles sabiam aquilo que a televisão e a mídia impressa divulgava, ou seja, a opinião deles era basicamente formada de acordo com a opinião (e a vontade) da mídia. Eles queriam a condenação do casal porque assassinar uma criança de forma tão brutal é um crime hediondo, digno inclusive de pena de morte de acordo com alguns. Mas tudo isso não passa de mais uma novela das oito, quer dizer, cria-se uma Helena (a vítima), uma Odete Roitman (a vilã) e um cúmplice. Em seguida, a história se divide em dois polos: o bem e o mal, onde não existem meios-termos.

Como seria se a mídia tivesse comprado outra versão do caso? Se os Nardoni, ao invés de ficarem conhecidos como o casal assassino, fosse o casal de mártires que além de perder a filha ainda sofre sendo injustamente acusado pela morte da criança devido à incapacidade da justiça em encontrar o verdadeiro culpado? Será que a opinião pública seria a mesma? Será que os menos esclarecidos não defenderiam os dois com unhas e dentes, com a mesma garra com que acusavam? Tentei por várias vezes discutir isso com as pessoas, mas a grande maioria estava abruptamente carente de qualquer razão e completamente tomada pela emoção e comoção do tão falado caso Isabella. Todos eles teimavam em tentar me convencer de que os dois eram os culpados, sem perceber que isso estava claro, que as provas já haviam me convencido e que não era isso que me indignava, mas a postura das pessoas em relação ao acontecimento. Desde antes das provas, do próprio julgamento, eles já estavam condenados, e quem ditou a sentença não foi o júri, o juiz, ou sequer o ato criminal, mas a mídia e a capacidade de formar e manipular a opinião pública.

O fato é que o assassinato é errado, ilegal, as provas e a cronologia do crime não deixaram dúvidas de que os réus eram culpados, mas a condenação que deveria vir destes elementos já havia sido dada por quem não deveria julgar e sim informar, com imparcialidade. Depois de muitas tentativas de explicar esse ponto de vista e de ser chamada de insensível, fria, defensora de criminosos, dentre outras coisas, acabei deixando pra lá, afinal, tem muito mais coisa acontecendo no mundo e eu, como "parte" da mídia, não deveria julga-la tanto. Preferi absolve-la, afinal, alguém precisava ser inocentado nessa história toda.

Mas ainda tem algumas ideias que insistem em transitar pela minha mente. É engraçado (pra não dizer triste, profundamente triste) pensar que as pessoas se revoltam com a morte de uma menina assassinada pelo pai e pela madrasta (que é revoltante, claro), mas não se revoltam com as milhares de crianças condenadas à morte que crescem nas favelas cariocas expostas a todo tipo de violência, com as crianças que morrem de fome na África, na Ásia, no orfanato do bairro vizinho, debaixo do viaduto pelo qual passamos apressados todos os dias. Eles se revoltam com uma morte violenta que mata em alguns minutos, mas sorriem pra morte lenta, aquela com a qual nos deparamos todos os dias graças à miséria, à violência, a falta de políticas públicas, de educação, de saúde, de condições básicas de sobrevivência. E é isso que me faz pensar: se o caso Isabella aparecesse tanto quanto todos os problemas citados anteriormente e fosse tratado com a mesma superficialidade, será que as pessoas estariam tão indignadas? A revolta não se dá pelo fim da vida de um ser humano, mas pela quantidade de vezes que o assunto aparece nas manchetes do jornal, portanto, a mídia é quem decide o valor da vida, o grau de monstruosidade de um crime e quem merece ser condenado ou absolvido. Enquanto isso, milhares de pessoas morrem das mais diversas formas, mas isso não deve mesmo ter nenhuma importância, afinal, o William Bonner e a Fátima Bernardes não falaram nada sobre isso.

Ressalto minha profunda admiração pelo jornalismo, levando em consideração a dificuldade de faze-lo neste país. A crítica não é direcionada aos profissionais que informam, pois estes desempenham seu trabalho em sua maioria da melhor maneira possível e são apenas a sustentação da pirâmide, mas é direcionada a quem detém o poder, a quem pode decidir o que informar ou não, sem dar satisfações a ninguém, e ainda assim, prefere se omitir e esconder a poeira debaixo do tapete.

.

domingo, 28 de março de 2010

Vinte centavos

O tempo é a prova mais fiel de que nada está sob meu controle, por mais que eu teime em tentar me convencer de que posso controlar o mundo e, acima de tudo, a mim mesma. Como eu gostaria de ter tempo para viver quando a vida bate em minha porta e como gostaria de acelerar o tempo para que a vida fosse se esvaindo entre meus dedos e se transformasse em um vulto, em quase nada, em uma única página a ser virada para finalmente chegar ao fim do livro.

Pensei que a semana não chegaria ao fim... Foram tantos os acontecimentos, tantos altos e baixos, tantas ideias e sentimentos, vontade de escrever, vontade de escrever, escrever tudo, mas o tempo não deixava.

Acho que tudo começou quando uma mistura de estresse, incapacidade, ciúme, raiva, inferioridade e confusão me invadiu de um jeito torpe, forte, como se viesse pra ficar. Ora, como é que eu poderia ser deselegante e convidar todo esse transtorno a se retirar? E o que eu sempre faço quando me sinto acuada e assustada? Faço com que os outros se sintam piores que eu, assim não podem ver o quão mal eu me sinto. Em seguida, a diferença, o não-pertencimento, o vazio, a sensação de ser reflexo do nada, um incomodo inexplicável, vontade de me encolher e me esconder num cantinho, hora de fugir. Eram tantos os pensamentos ruins que não sobrava tempo pra mais nada. Um barulho interrompeu as frases feitas em minha cabeça, era meu estômago chamando, gritando, reclamando dos maus tratos. Fome. Enfiei a mão na bolsa, no bolso e... nada. Vinte centavos. A isso se resumia minha vida, minha fome, meu desejo, minha dignidade. Vinte centavos é menos que nada, pois quando se tem vinte centavos não se compra nada, e ainda há o peso de carrega-lo. A tristeza e a raiva se misturavam ao estômago que cada vez reclamava mais alto. No dia seguinte, depois de algumas lágrimas, pensamentos suicidas e um pouco de sono, a alegria voltou de viagem, empurrou a tristeza pra longe de forma deselegante, mal educada e se instalou bem no meio de mim, esparramada, ocupando todo o espaço que lhe cabia. Seria isso um forte indício de bipolaridade? Ir da depressão à mania em algumas horas realmente não é mesmo muito normal, mas quem define a tal normalidade? Deixei de lado a bipolaridade, não por medo ou "ceticismo científico", mas que psiquiatra me atenderia se eu lhe oferecesse vinte centavos? Melhor correr e pegar o ônibus até em casa, onde haveria comida e cama de graça.

Cheguei e não havia nada. Corri para ligar a TV e ouvir a sentença dos Nardoni, ou devo dizer a sentença da vaidade, da inutilidade, da hipocrisia, do falso moralismo nacional? Achei a leitura do juiz pouco agradável, mas esse é um assunto que pretendo tratar com mais delicadeza em outro momento. Encostei a cabeça no travesseiro, lembrei da meleca feita com cola e jornal na aula de direção de arte, lembrei da tensão do trabalho pacato, da saudade de ouvir uma voz familiar e ver feições acolhedoras, dos transtornos, da fome, dos amigos, dos planos profissionais, da faculdade, da fome, das obrigações, das boas risadas que se foram com as pessoas que as causavam, da fome, do sono, da fome... E a sentença continuava sendo dada entre fogos e lágrimas...

Fechei os olhos e prometi que o final de semana seria produtivo, mas assim que lembrei daqueles velhos vinte centavos, achei melhor fazer meu próprio caderno de arte, cozinhar e comer o que tinha no armário (e que nunca foi tão saboroso), ver os filmes que carinhosamente os amigos emprestaram e sorrir com a vitória do Flamengo no domingo. O cabelo desarrumado, as unhas mal feitas, o quarto bagunçado, a roupa suja, o caderno artesanal torto e cheirando a café, mas a alma lavada.

Engraçado mesmo é que sentei para escrever sobre a mídia, sobre a defasagem na graduação, a falta de contribuição intelectual e prática das disciplinas de direção de arte e elenco, a tão falada Semana do Caso Isabella, a briga entre a razão e a emoção, a suspeita da minha bipolaridade, o fim de semana perdido, etc etc etc... e no fim, acabei falando daquilo que estava dentro e mais uma vez deixando os planos de lado. Pelo menos os assuntos estão anotados, vou deixa-los guardados na gaveta junto com as ideias para as resenhas dos filmes que vi (A Órfã e Frida - sim, quase opostos) e, claro, junto com os vinte centavos.

Quando a gente pensa que a vida não vale nada, descobrimos que dá pra viver uma eternidade em apenas alguns pensamentos e, só por segurança, ainda assim guardar uma moeda ou duas que somem vinte centavos.



domingo, 21 de março de 2010

Gabi


Eu acredito muito em energia e as pessoas devem atrair umas as outras através da combinação de suas energias. Eu não poderia deixar um dia como hoje passar em branco, sequer poderia sentar para digitar e escrever sobre meus sentimentos sem fazer nenhuma citação a quem me acrescenta, me ensina, me compreende e completa, me desafia, me faz discutir horas a fio, me obriga a dar o braço a torcer, me faz chorar, chora comigo, me faz ver além das aparências, me faz rever, aceitar, entender pontos de vista tão opostos aos meus. Me ajuda a entender o que a lógica não explica, me explica a física quântica, me conta o final da Caverna do Dragão, me bota pra dormir, me deixa ser frágil e ser aquilo que muitas vezes nem eu mesma sabia que poderia ser.

E por que não ser objetiva, direta, citando nomes e tudo mais? Eu não sei se você é minha melhor amiga, uma irmã ou se é realmente o anjo da guarda que um dia eu disse que você era. Eu sei que eu te amo e eu não preciso te dizer nada, não preciso provar nada, não preciso estar sempre perto de você. Eu só preciso olhar, de cantinho, rapidinho, de ladinho, e você reconhece meu jeito de olhar e já sabe de tudo, sem eu ter que ter o trabalho de falar.

Provavelmente é o primeiro e último texto que faço sobre e para alguém. Mas não estaria sendo eu e não seria honesta comigo mesma se não o fizesse. Obrigada.

.

"...O cair da tarde no velho terreiro..."

Eu pensei, pensei, pensei... falar ou não falar sobre o assunto?

É o tipo de coisa que me constrange um pouco, ou melhor, muito. Eu que sempre prezei pelo ceticismo, pela lógica, pela fé na ciência, no mundo material, no que é palpável, de repente me vejo tão vulnerável, frágil, confusa, admirada, encantada com aquilo que não posso provar, não posso tocar, não posso sequer manipular ou controlar como costumo fazer com o que está a minha volta.

A pergunta é:

Por que todo mundo me diria a mesma mentira? Quer dizer, como todos eles seriam tão igualmente criativos e casualmente criariam os mesmos personagens, a mesma história, o mesmo clímax, o mesmo desfecho?

No final, tudo não passa de um filme de ficção. É apenas uma história que alguém escreveu despejando no papel parte de si, com personagens disfarçando verdades em falas decoradas, com a interpretação e o sentido que a experiência de quem vê quiser enxergar.

Nenhuma ficção é ausente por completo de realidade e nenhuma realidade é real se quem a interpreta não acredita nela. Então, se alguém acredita que uma história é real é o suficiente para que seja verdade? E se tudo que é real inspira parcialmente o que é ficcional e toda história de ficção é fundamentada de alguma forma em sentimentos e experiências, tudo passa a ser realidade?

Do alto de tanta complexidade, me limito a parar por aqui, antes que eu me perca entre a ficção e a suposta realidade.

O desfecho do meu dia é uma questão de ponto de vista. O cabelo arrumado, o corpo descansado, a gripe com um pé aqui, outro lá. Um macarrão pesado, molho queimado e super salgado e queijo ralado na hora. O estômago às voltas entre goladas de limão e água adoçada. Flashes do Fantástico, Escolta de Vagalumes, textos, pensamentos, palavras e palavras.

Mas uma alegria que me acompanha, e que agora mais que nunca eu sei que me acompanha. Eu falei pra ela, depois de muito pensar, mas ela não agiu diferente do que eu imaginava. O preconceito é muito maior que a capacidade de ouvir, sentir, pensar, respeitar. Eu derramei uma ou outra lágrima que ele secou, e aí acabei deixando pra lá. Talvez um dia ela entenda. Não quem ele é, não onde ele está, porque isso sequer eu poderia afirmar. Talvez um dia ela entenda que tudo que eu esperava era um sorriso e que ela ficasse feliz pela paz, pelo conforto, pela felicidade que eu acabei de encontrar.

Quanto a minha interpretação do que é real, do que é ficção e do que é conveniente acreditar, tanto faz. Que diferença fará? É como ver um filme de conto de fadas e sorrir esperando o príncipe vir te buscar. Talvez ele venha, talvez não exista, quem tem certeza suficiente pra afirmar? O importante é o sorriso gostoso que você dá esperando ele chegar.

Eu sempre soube que era ele, que ele viria comigo onde eu fosse. E agora eu entendo tudo que durante muito tempo a lógica não conseguiu me explicar. Se vai ser diferente amanhã não sei. Só sei que eu estou bem, ele está bem, ela está bem. Ela não disse com as palavras, mas tem outras formas de se falar. Agora é hora de cair na cama e quem sabe um dia assistir ao cair da tarde no velho terreiro.

.